18/06/20 15:40 ●

Estudo aponta que uma em cada três crianças migrantes venezuelanas vai dormir com fome durante a pandemia

Estudo realizado pela ONG World Vision durante o mês de abril na Colômbia, Brasil, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia e Chile


Estudo aponta que uma em cada quatro crianças migrantes venezuelanas está separada de seus pais durante a pandemia e uma em cada três vai dormir com fome

Alguns dias antes do Dia Mundial dos Refugiados (20/6), a agência internacional de ajuda humanitária World Vision publica uma pesquisa que alerta sobre o maior risco de pobreza e exploração que as crianças migrantes venezuelanas correm à medida que milhares voltam a colocar em risco suas vidas para buscar segurança durante a pandemia. Mais de 5,1 milhões de venezuelanos fugiram de anos de crise econômica e política para países da América Latina, onde agora enfrentam um duplo problema devido ao COVID-19.

O estudo Migração e COVID-19: Infância venezuelana entre a espada e a parede, em que 392 meninos e meninas participaram em seis países de acolhida e na Venezuela, constatou que: uma em cada quatro crianças foi separada dos pais durante o surto de Coronavírus; uma em cada três crianças vai dormir com fome; 60% das crianças relataram aumento da xenofobia e discriminação contra elas durante a crise pelo COVID-19; 63% disseram que não podem continuar seus estudos durante a pandemia, incluindo os 77% dos meninos e meninas que vivem no Brasil; 34% disseram não ter acesso a serviços de saúde; 20% disseram que não têm acesso a água e sabão para manter uma boa higiene durante a quarentena.

Devido à perda de renda, 63% das famílias tiveram que encontrar acomodações mais baratas, encontrar um abrigo ou ainda ir para a rua. Outros 28% estão em risco de despejo devido à incapacidade de pagar o aluguel. Isso destaca as crescentes vulnerabilidades enfrentadas pelas crianças migrantes à medida que a pandemia do COVID-19 aumenta a pressão sobre as economias e os governos já frágeis da região.

"Os meninos e meninas migrantes já se encontravam entre os mais vulneráveis ​​do mundo antes que chegasse essa crise de saúde", afirma João Diniz, Líder Regional da Visão Mundial para América Latina e Caribe. "Pais e mães perderam o emprego, as famílias estão sendo despejadas de suas casas, a xenofobia está aumentando e muitas crianças não sabem de onde virá sua próxima refeição. Este estudo mostra uma imagem desanimadora da realidade em que muitas crianças vivem hoje", acrescentou .

"As medidas tomadas para impedir a propagação do COVID-19 na região, embora de importância crítica, estão obrigando as famílias a se mudarem porque já não conseguem mais sobreviver até o fim do mês. Nossos colegas relatam o grande aumento no fluxo de pessoas dormindo nas fronteiras ou atravessando sem documentação, fazendo com que as crianças fiquem extremamente vulneráveis ​​a abusos e exploração. Sabemos que o tráfico de pessoas e o abuso sexual estão ocorrendo e tememos que muitos casos não sejam detectados durante o caos da pandemia", pontuou Diniz .

O estudo foi realizado durante o mês de abril na Colômbia, Brasil, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia e Chile. Atualmente, sete milhões de pessoas precisam de assistência humanitária na Venezuela e fora do país, mais de 3,6 milhões de crianças precisam de serviços de proteção, de acordo com o plano de resposta atualizado das Nações Unidas para a crise na Venezuela. Isso significa que são 400 mil pessoas a mais do que as que precisavam de proteção no final de 2019.

"Para comemorar o Dia Mundial dos Refugiados, é vital que intervenhamos na dura realidade enfrentada por tantas crianças forçadas a deixar suas casas. É uma crise muito grave", afirmou Dana Buzducea, Diretora de Compromissos Públicos da World Vision Internacional. As crianças vão dormir com fome e muitas correm um sério risco de abuso e exploração. A Visão Mundial e outras agências de ajuda humanitária continuarão trabalhando com famílias vulneráveis ​​enquanto combatem os impactos secundários do COVID-19, mas não podemos fazê-lo sozinhos. A comunidade internacional deve fornecer os fundos necessários para apoiar essas crianças e protegê-las de perigos inimagináveis ​​", concluiu Buzducea .

Os migrantes no Brasil

No Brasil o estudo aponta que os meninos e meninas migrantes encontram-se em alta vulnerabilidade social, principalmente frente ao contexto da COVID-19. Três em cada quatro meninas, meninos, adolescentes e jovens que atualmente residem no Brasil vivem em um local de ocupação espontânea.

A maioria das crianças pesquisadas (77%), não frequentam as aulas, porque foram suspensas ou porque não estão matriculadas em nenhuma escola. E outras mesmo matriculadas não estão frequentando por conta da suspensão das aulas pela quarentena ao COVID-19.

A separação familiar é persistente: um terço das crianças migrantes que vivem no Brasil não têm ou não tinham nenhum pai morando em casa antes, o que aumenta, portanto, o risco de abuso.

Quase dois terços das crianças que foram questionadas alegaram que neste tempo de COVID-19 alguém em casa tem que sair para trabalhar. 17% das famílias dos entrevistados foram despojadas do local onde moravam e 57% tiveram que buscar lugares mais econômicos para viverem, tendo em vista a queda da renda familiar. 9% tiveram que ir para um albergue e 4% tinha risco de ficarem desempregados ou não tinha condições de pagar aluguel.

A discriminação é um dos aspectos que mais os afetou, já que metade disse que podia perceber um tratamento diferencial negativo em relação a algumas pessoas e dois terços deles sentiram discriminação devido ao status de migrantes .

De acordo com os dados desta pesquisa, o Brasil é o país com menor população migrante com acesso à televisão (23% têm televisão, contra 62% em média), rádio (19% contra 28% em média) ou celular (81% em comparação com a média de 91%). Essas limitações no acesso aos meios de comunicação em massa são possivelmente a razão pela qual os migrantes no Brasil relatam o maior número de pessoas que receberam informações sobre o COVID-19 das ONGs (66% em comparação com a média de 26,3%). No entanto, 80% das crianças e adolescentes afirmam que sabem para onde ir se precisarem de ajuda. Cerca de 85% das pessoas entrevistadas afirmam que os pais e sua família são as primeiras pessoas a recorrer em busca de proteção e ajuda.

Sobre o acesso a bens básicos durante o isolamento social, para a grande maioria (89% dos entrevistados) sempre há acesso água e sabão para higienização e para 25% dos entrevistados não há alimentos suficientes para todos os membros da casa.

Sobre a Visão Mundial
A Visão Mundial Brasil integra a parceria World Vision International, que está presente em cerca de 100 países. No País, a Visão Mundial atua desde 1975, beneficiando 2,7 milhões de pessoas com projetos nas áreas de educação, saúde/proteção da infância, desenvolvimento econômico e promoção da cidadania. Seus projetos e programas têm como prioridade as crianças e adolescentes que vivem em comunidades empobrecidas e em situação de vulnerabilidade. Nesses 44 anos de atuação no Brasil, a Visão Mundial se consolida como uma organização comprometida com a superação da pobreza e da exclusão social. Para saber mais, acesse o site visaomundial.org

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